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Reparação6 min leitura

O disco que não deixa apagar nada — nem que quiséssemos

Um disco recusava-se a manter qualquer alteração do utilizador — e recusava-se, também, a ser apagado ou formatado por qualquer sistema. A explicação está no controlador interno do disco, que finge gravar dados sem os gravar de facto.

Há avarias que complicam a vida do utilizador. E há avarias que complicam a vida a toda a gente, incluindo a quem tenta corrigi-las. Esta última categoria é a mais interessante de contar, porque desafia a lógica mais básica que temos sobre discos: se algo corre mal, normalmente conseguimos pelo menos apagar tudo e recomeçar do zero. Neste caso, nem isso.

Chegou-nos um disco SATA de 120 GB com um comportamento no mínimo peculiar. O sistema operativo Windows instalado nele funcionava normalmente durante a sessão: era possível instalar programas, guardar ficheiros, alterar configurações. O problema aparecia sempre no momento seguinte — ao reiniciar o computador, tudo regressava exactamente ao estado anterior, como se nada tivesse acontecido. Nenhuma alteração sobrevivia a um simples restart.

A reacção lógica de qualquer técnico perante isto é: "então vamos formatar e instalar tudo de novo". Foi exactamente o que se tentou. E foi aí que o caso se tornou verdadeiramente irónico.

Quando até apagar é pedir demais

Arrancámos o computador a partir de um instalador do Windows, com o objectivo de eliminar as partições existentes e recomeçar com uma instalação limpa. O instalador não deixou. Tentámos então uma distribuição Windows PE independente, já fora do contexto da instalação original, apenas para forçar uma formatação directa. Também não foi possível — o processo arrancava, mas nunca chegava a concluir, e o disco continuava exactamente como estava antes.

Nesta fase, já havia um padrão a emergir, mas confirmá-lo exigia sair do ecossistema Windows por completo. Ligámos o disco a um Mac, através de um adaptador USB-SATA, e recorremos ao Disk Utility para tentar recriar o esquema de partições do zero. Resultado: recusado, mais uma vez.

Três ambientes distintos — instalador Windows, sistema live independente, e macOS — com a mesma reacção perante o mesmo disco. Isto já não é coincidência nem incompatibilidade de um sistema específico. Quando três abordagens completamente diferentes falham da mesma forma, o problema deixa de estar no software e passa a estar no próprio hardware.

O disco que diz que sim, mas quer dizer não

Com as vias "normais" esgotadas, avançámos para um teste mais directo e mais brutal: escrever dados aleatórios directamente no disco, sector a sector, ignorando por completo sistemas de ficheiros, partições e tudo o que normalmente está entre nós e o hardware. Se o disco aceitasse a escrita e a mantivesse, teríamos pelo menos uma base para reconstruir tudo manualmente.

O disco aceitou o comando. Reportou sucesso. Sem qualquer erro.

E, ao ler imediatamente a seguir os mesmos sectores — sem desligar nada, sem reiniciar, sem sair da mesma sessão — encontrámos o conteúdo antigo. Exactamente o mesmo de antes da escrita. Os dados novos, simplesmente, nunca lá chegaram a ficar.

É este o momento em que a ironia se torna impossível de ignorar: tínhamos um disco que se recusava a manter as alterações do utilizador, mas que também se recusava a aceitar as nossas tentativas de o apagar. Não era um disco protegido contra escrita no sentido tradicional — dessas protecções há muitas, e normalmente dão erro de forma clara e imediata. Este disco fingia obedecer. Aceitava a ordem, respondia com sucesso, e simplesmente não a executava.

O que está realmente a acontecer

O que este comportamento revela é uma falha ao nível do controlador interno do disco — o componente que gere para onde e como os dados são fisicamente escritos na memória flash. Quando este controlador entra em determinados estados de falha (normalmente associados ao esgotamento dos blocos de reserva usados para gerir o desgaste da memória, ou a uma avaria directa do próprio controlador), alguns discos adoptam um comportamento de protecção: continuam a responder aos comandos do sistema operativo para evitar que o computador trave ou apresente erros críticos, mas deixam de gravar de facto qualquer informação nova.

Do ponto de vista do sistema operativo, está tudo bem — os comandos são aceites e confirmados. Do ponto de vista da realidade física do disco, nada está a mudar. É esta divergência entre o que o disco diz e o que o disco faz que explica todos os sintomas: as alterações que desaparecem ao reiniciar, a impossibilidade de reparticionar, e a resistência a qualquer tentativa de formatação, independentemente do sistema operativo ou ferramenta utilizada.

Vale a pena sublinhar: isto não tem qualquer relação com vírus, corrupção de sistema de ficheiros, ou erro de configuração. Não há comando, software ou truque que resolva uma falha desta natureza, porque o problema está abaixo de tudo isso — na camada onde o disco decide, sozinho, se vai mesmo gravar ou apenas fingir que grava.

A única solução real

Perante um controlador de disco neste estado, não existe reparação viável. A recomendação, sempre que este padrão se confirma, é a substituição do disco. No caso descrito, avançou-se para um disco M.2 NVMe, aproveitando a oportunidade para ganhar também uma melhoria significativa de desempenho face ao disco SATA original — arranques mais rápidos e resposta geral do sistema muito superior.

Fica também uma nota prática para quem lida com sintomas parecidos: se um computador começa a "esquecer" alterações depois de reiniciar, ou se um disco resiste de forma anómala a ser formatado por mais do que um sistema ou ferramenta diferente, vale a pena desconfiar do hardware antes de perder tempo a mexer em configurações de software. E, já agora, aproveitar para verificar se existe uma cópia de segurança actualizada dos dados mais importantes — porque discos que se recusam a apagar informação hoje podem, sem aviso, perder essa mesma informação amanhã, tornando necessária uma recuperação de dados que podia ter sido evitada.


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